O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura

O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura (1955) é um imperdível relato da perversão de uma utopia. É a bem fundada descrição de uma casa, de uma cidade, de sonhos e de vidas. É um romance histórico que contém muito romance (as memórias dos narradores) e muita história (no núcleo da narrativa o assassinato de Trotsky, nascido Liev Davidovich Bronstein, 1879-1940).

O autor decanta promessas da maior utopia que se tem notícia: uma ordem futura e imaginária na qual na qual todos seríamos iguais. A história desse desencanto, em forma desse precioso livro, desdobra-se em vários lugares: Havana, Moscou, Cidade do México, Oslo, Istambul, Barcelona, Madrid. É o desmanche da utopia soviética (e quem sabe não necessariamente da utopia marxista).

Leonardo Padura (que conhece a realidade cubana, vive em Havana, se recusa a sair do País) descreve com pormenores o socialismo real. Desfilam pessoas tremendamente cruéis. Josef Stálin (1878-1953) é provavelmente o mais cruel de todos os personagens (reais) do livro. Um líder perverso. Trotsky também é descrito com muito realismo. O livro é, nesse sentido, uma recolha de obsessões do fanatismo político.

Padura também se concentra na vida errática do assassino de Trotsky, Ramon Mercader (1913-1978). Mercader nasceu em Barcelona, viveu muitos anos preso no México, faleceu em Havana. Catalão, inimigo visceral de Francisco Franco, combateu na Guerra Civil espanhola ao lado dos republicanos. Fingindo ser belga, simboliza o guerrilheiro permanente, o mercenário politicamente correto, o obsessivo compulsivo pela revolução.

Trata-se de uma figura também extremamente cruel. A descrição do assassinato de Trotsky mostra-nos um criminoso brutal. Padura constrói essa parte do livro com traços fortíssimos de romance policial, estilo pelo qual é mais conhecido. Padura criou o detetive Mário Conde, um policial desiludido. Remeto o leitor a Passado Perfeito, Ventos de Quaresma, Paisagem de Outono, A Transparência do Tempo, Pessoas Decentes, entre tantos outros.

O Homem que Amava os Cachorros é também um recado amargo (e creio que realista) da decadência de Cuba após o fracasso da União Soviética. Posso testemunhar. Estive em Cuba em 1991, pouco tempo depois da queda do muro de Berlim. A situação (em 1991) era desoladora. Não consigo imaginar como é hoje.

Spacca
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Do ponto de vista do relato histórico, O Homem que Amava os Cachorros trata da ascensão e da queda de Stálin, seus crimes, da miopia da esquerda, de humilhações, de mentiras. Padura descreve uma patologia em forma de psicologia política. Aponta para falsos engenheiros sociais. São os “ungidos” na expressão de um autor norte-americano odiado pela esquerda (Thomas Sowell).

Padura planta uma questão historiográfica. Apresenta uma versão histórica de perdedores, cuja vitória imaginária não passou de uma quimera provisória. A relação de Trotsky com o pintor Primo de Rivera e com a pintora Frida Kahlo (com quem teve um caso) descortina um mundo de ilusões perdidas, o que intuitivamente nos remete ao título de um livro de Balzac.

O Homem que Amava os Cachorros não é um relato de ucronia, um certo subgênero literário e artístico que nos indica uma história alternativa; isto é, um relato do que teria acontecido se o mundo marchasse de outra forma. Talvez o principal livro de ucronia seja O Homem do Castelo Alto, de Philip Dick, no qual o autor imagina como seria a vida norte-americana se os alemães tivessem ganho a Segunda Guerra Mundial. Padura não nos traz uma versão histórica sobressalente. O escritor cubano enfatiza a realidade.

Sobre o título, uma dica. Todos os personagens centrais do livro (Mercader, Trotsky, Ivan – o primeira narrador) têm em comum o afeto por cães. A amizade entre Daniel Fonseca Ledeira e Iván Cardenas (os dois narradores, creio que ficcionais, no caso), de algum modo nos remete à amizade entre Franz Kafka e Max Brod.

Um livro importantíssimo para os nossos tempos.

O Homem que Amava os Cachorros, Leinardo Padura, Boitempo, 2015

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