Direito penal enfrenta estado de coisas voltado para perpetuar a desigualdade

Precisamos falar sobre a desigualdade na aplicação do direito penal. Em tempos de debates intensos sobre segurança pública, pouco se discute sobre distorções na distribuição da justiça criminal e a respeito de certos absurdos que passeiam pela lei e pelos julgamentos, conhecidos por poucas e silentes pessoas.

caricatura Pierpaolo Bottini [Spacca]Spacca

Não é segredo que penas incidem de forma desigual na sociedade. Negros e pobres são os destinatários usuais dos castigos: 68% das pessoas abordadas pela polícia e 80% das pessoas mortas por agentes do Estado são negras e residentes nas periferias. A população dos presídios é composta de pretos e pardos, de parcas condições econômicas e baixa escolaridade. No Brasil, 61% dos presos não completaram o ensino médio e apenas 0,92% têm curso superior completo.

Esse desequilíbrio na aplicação da norma penal não é fruto de preconceitos isolados ou circunstanciais. Há uma cultura legal voltada para preservar esse estado de coisas, enraizada no sistema judicial e político, latente e pouco comentada.

 

Algumas leis criminalizam diretamente o estilo de vida dos mais pobres, como a contravenção penal de vadiagem, definida como o ato de “entregar-se habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência”. O ato ilegal não é ser ocioso, mas não ter renda para sê-lo.

Outras leis menos caricatas aprofundam a desigualdade na distribuição da Justiça penal. Um exemplo: quem comete um crime fiscal, após ser condenado em última instância, pode pagar a dívida a qualquer tempo e deixar de sofrer a pena. O agente sonega o imposto e aposta na impunidade. Se for descoberto, após anos de processo, recolhe o tributo e a vida segue. Esse benefício, inexistente em qualquer outro país, não se aplica aos demais crimes patrimoniais sem violência ou grave ameaça, como o estelionato, o furto ou a apropriação indébita. Para eles, a devolução dos bens é irrelevante, a pena é aplicada da mesma forma.

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