Márcio Chaer, um mecenas

Márcio Chaer, que perdemos neste sábado último (3/10), foi, entre tantos outros atributos, um mecenas. Abriu janelas para muitos de nós. Inovador (na forma e no conteúdo), Chaer é também um marco na cobertura jornalística dos temas do Judiciário. O antepassado comum é Plínio Barreto (1882-1958), que nos deixou as memoráveis Crônicas Forenses, hoje peça de colecionador. Plínio Barreto fixava os grandes debates do foro em belíssimas crônicas. O direito saía das salas dos tribunais e se tornava compreensível.

márcio chaer 2Reprodução
Márcio Chaer (1955-2026)

Chaer avançou nesse desafio, enalteceu essa tradição. A par de colher informação de primeira mão nos debates e decisões que marcam o nosso tempo, contou com uma legião de colaboradores. A revista eletrônica Consultor Jurídico abriu espaço até então não imaginado. Chaer é contemporâneo da expansão da rede mundial de computadores. Intuiu que esse era o caminho. Desbravou.

Sua revista jurídica eletrônica logo tornou-se uma necessidade para o profissional do Direito. Matéria prima de superlativa grandeza sem a qual a lida diária tornava-se ainda mais difícil. O mercado conheceu outras revistas, todas de extraordinária qualidade. No entanto, Chaer sempre foi o benchmark, a referência com a qual se mediam e comparavam os demais esforços.

Corajoso, Chaer era um homem de posições firmes. Sua atuação em fase dos desmandos da “lava jato” (que a revista em algum momento passou a denominar de finada “lava jato”) revelou um jornalismo combativo e comprometido com o interesse público. A informação, nesse sentido, é interesse público primário. Chaer não faltou com esse compromisso.

Intelectualmente, era um onívoro. Se interessava por tudo. Na análise, no entanto, tinha a calma dos herbívoros, e não a pressa dos carnívoros. Aqueles que convivemos com ele, constatamos que Chaer era calmo nas horas nervosas, e nervoso (muito nervoso) nas horas calmas.

Agora, o testemunho. Chaer me recebeu em 2011. Ele tinha em mente uma coluna semanal que aproximasse o direito e as humanidades. Ao lado de um colaborador seu muito próximo naqueles tempos veio o título: “Embargos Culturais”. O título não é ideia original minha. É de Chaer e de seu grupo. O título pegou. A coluna, nos primeiros anos, tateava; ainda não havia encontrado um eixo ordenador. Chaer me apontou um caminho que tomei, e que não tem volta. Passei a resenhar livros (jurídicos e não jurídicos), filmes, e tudo quanto aproximasse o Direito e as humanidades.

Chaer indicou obras. Apontou filmes. Sugeriu alternativas. Tornei-me um leitor ainda mais atencioso; e um escritor ainda mais compenetrado; para Chaer é nos detalhes que encontramos a substância. Ao longo de dezesseis anos, amadureci. Certo dia, passando pela tarde em uma livraria aqui em Brasília, impressionou-me um advogado que fora buscar justamente o livro que eu havia comentado naquele domingo. Um prêmio, que divido com Chaer.

Caricatura: Prof. Arnaldo GodoySpacca
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Caio Clínio Mecenas (século I a.C.) foi o proverbial conselheiro do Imperador Otávio Augusto. Teria apoiado Virgílio, Horácio, e tantos outros da reminiscência literária romana. Na Idade Média, essa figura renasceu nos príncipes italianos, a exemplo de Cosme de Médici. Por extensão, o “mecenas” é quem apoia a cultura, divulga a cultura, promove a cultura.

Chaer, nesse sentido, foi certamente um mecenas

Abrigou e apoiou um grande número de nós outros. A ConJur foi uma vitrine para tantos de nós.

Porém há algo mais na figura do mecenas. O mecenas não é apenas quem sustenta a cultura. É também quem percebe uma voz, oferece-lhe espaço e, sobretudo, confia que a voz encontrará leitores. Não escreve necessariamente o livro, mas ajuda a torná-lo possível; não pinta o quadro, mas cria as condições para que seja visto.

Chaer tinha esse talento raro. Descobria temas, provocava autores, indicava livros, sugeria caminhos. Muitas vezes enxergava no colaborador uma possibilidade que o próprio colaborador ainda não havia percebido. É o meu caso.

O mecenato de Chaer tinha, além disso, uma característica de nosso tempo. Mecenas, em Roma, aproximava poetas do poder; os Médici reuniam artistas em torno de suas cortes. Chaer construiu uma praça pública. A ConJur tornou-se uma espécie de ágora do Direito brasileiro, na qual magistrados, advogados, membros do Ministério Público, defensores, professores e estudantes puderam escrever, discordar, provocar e, principalmente, ser lidos. Seu mecenato não consistia em proteger uma escola ou impor uma orientação. Consistia em abrir espaço.

Talvez essa seja a forma mais generosa de mecenato. O verdadeiro mecenas não pretende ocupar o lugar daqueles a quem apoia. Ao contrário: alegra-se quando eles ocupam o espaço que ajudou a criar. Seu legado, por isso, não se mede apenas pelo que pessoalmente escreveu ou realizou, mas também pelo que outros puderam escrever e realizar porque ele estava ali. No entanto, registre-se, foi um escritor memorável.

Tenho com Chaer uma dívida. Muitos a têm. Quando aquele advogado entrou na livraria de Brasília procurando o livro que eu havia comentado no domingo, compreendi que uma coluna podia produzir consequências para além de quem a escrevia. Hoje compreendo também que aquele pequeno episódio tinha um autor invisível. O livro era do escritor, a coluna era minha, a escolha era do leitor. Mas a janela havia sido aberta por Chaer.

Caio Clínio Mecenas emprestou seu nome à história. O substantivo tornou-se adjetivo. Márcio Chaer fez jus à palavra; e o verbo fez-se ação. Saudade. Saudade eterna.

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