Márcio Chaer detestava obituários mal feitos e outras coisas

Márcio Chaer detestava obituários. Dizia que jornalistas não tinham criatividade e só sabiam elogiar as pessoas que morriam. Ele detestaria um obituário cheio elogios. Em 2009, quando morreu o professor Goffredo da Silva Telles Jr., em um fim de semana, tomei uma bronca porque ele não conseguiu falar comigo. Estava em um churrasco em família e quando ele finalmente falou comigo, disse algo como: “o Goffredo morreu e você sumiu”… Estava indignado.

márcio chaer 2Reprodução
Márcio Chaer (1955-2026)

Fui ler o texto que ele fez sobre a morte e começava assim: “Serenamente. Durante o seu repouso, em casa, morreu por volta das 19h deste sábado o mais célebre professor que a Escola de Direito do Largo São Francisco já teve: Goffredo da Silva Telles Jr”. Ainda bem que sumi. Não teria feito uma abertura de texto melhor. Fiquei com a consciência muito pesada e dias depois fiz uma homenagem ao professor, na minha coluna na revista eletrônica Consultor Jurídico chamada Imagens da História, sobre a Carta aos Brasileiros, escrita por Goffredo e que abriu o caminho para o processo de redemocratização do país.

Minha história com o Márcio começou em novembro de 2000. Eu era recém-formada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A ConJur tinha três anos de existência e me foi apresentada pelo amigo Aílton Segura, jornalista e professor da UFMT, que conhecia o Márcio Chaer. Eles trabalharam juntos na Gazeta Mercantil e eram amigos. O Segura dizia que eu tinha de conhecer o Márcio. Marcamos uma entrevista e fiquei uma semana em São Paulo para conhecer a revista eletrônica, como ele gostava que chamassem a ConJur. A ideia de chamar a ConJur de site sempre foi simplista para ele.

Na primeira conversa que tive com o Márcio, em tom professoral, típico dele em todas as conversas com a redação, quis me explicar como funcionava os fatos no mundo jurídico. Ele disse que “um ovo não cabe na caixa de fósforo” ao falar sobre o direito de defesa. Essa era a primeira defesa que sempre fazia a um novato na redação. Eu tinha 24 anos na época e hoje estou com 50. Nunca esqueci aquela conversa e sempre relembro cada vez que o direito de defesa é atropelado.

Quando entrei na ConJur, eu era a repórter, o Daniel Tannus o editor e, vez por outra, aparecia algum estagiário, ficava alguns dias e logo ia embora. Pouco tempo depois de eu chegar, o Tannus saiu e fui promovida a editora. Na ocasião, a redação ficou durante um bom tempo sendo composta por mim e por ele. Nos desdobrávamos para publicar informações exclusivas e o noticiário trivial do mundo jurídico. Não eram raras as vezes em que chegavam decisões judiciais por fax. Dependendo da informação, que ele já tinha recebido por telefone, ficava em cima do aparelho esperando o término da impressão. Assim que terminava a impressão, dividia comigo para digitar o mais rápido possível e produzir a notícia com a íntegra.

Herdei dele a coluna Leis & Negócios, da revista Exame, e depois conquistei outra chamada Por dentro da Lei, da Exame PME. O Márcio decidiu passar o bastão da coluna. E, na época, marcou um almoço entre mim, o Beto Caetano, editor da coluna e a Claudia Vassalo, diretora de redação. Eu, insegura com tamanha responsabilidade e desafio de substituí-lo, disse: “Será que eles vão aceitar que eu seja a nova colunista?” Ele disse confiante: vai lá e pega a coluna para você. Insisti na pergunta e ele respondeu: “Quem vai fazer? A mãe deles?” Resposta irônica para me dizer que não tinham outra opção. Fui no almoço e, mesmo notando olhares desconfiados, recebi a coluna de herança.

São tantas histórias que estão guardadas na memória

Outras relembradas por colegas no velório. Uma delas foi quando recebi flores na redação em um dos muitos aniversários que passei na ConJur. Ele foi no computador da jornalista Fernanda Ederlyi e, para fazer uma intriga como gostava, me passou uma mensagem, como se fosse ela pelo MSN, dizendo: “Muito bonito, dona Débora! Mandando flores pra si mesma”. Fiquei muito irritada com a Fernanda para depois descobrir que foi mais uma pegadinha dele.

A última conversa que tive com o Márcio foi no dia 19 de agosto deste ano. Ele estava embarcando para a posse do presidente do STJ, Luis Felipe Salomão, e falamos rapidamente… Eu poderia contar muitas histórias que vivi com esse jornalista genial por mais de 20 anos. Mas me vem ele na cabeça agora dizendo o que costumava falar ao editar um texto: pra que tantas palavras?

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