Um amigo chamado Márcio Chaer

Difícil escrever sobre amigos próximos. Difícil escolher partes de sua personalidade e fatos que merecem destaque, dentro de uma montanha de acontecimentos, ainda mais quando perpassam vinte anos de conversas quase diárias, viagens, e tantos planos de dominar o mundo, ou ao menos de torná-lo um lugar menos autoritário e mais livre. Difícil não se emocionar ao perceber que tudo isso se tornou passado na última semana.

Mas vale tentar, em memória do querido Márcio, essa pessoa ímpar, destaque no álbum de figuras da vida de todos os que tiveram a oportunidade de conviver com ele.

Começou a carreira no jornalismo tradicional. Passou grande parte do tempo em redações, na Veja, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e Jornal da Tarde, nas áreas de esportes, política e Justiça, morou nos mais diversos lugares, e escreveu matérias sobre variados assuntos.

Nos anos 90, após uma longa conversa com Celso de Mello, na qual compartilharam incômodos com o punitivismo e arbitrariedades praticadas por certos agentes de Estado, incensadas por setores da imprensa, resolveu fundar o Consultor Jurídico, primeiro informativo jurídico do país, divulgado pela internet, ainda em seus primórdios. Mais que matérias sobre sentenças e leis, Chaer criou um instrumento de proteção do direito de defesa e do Estado democrático. Deixou o conforto daqueles que acusam e postou-se junto da presunção de inocência e da garantia do direito de liberdade. Contra as marés, deu espaço aos outros lados em casos importantes, como o Mensalão, a “lava jato” e vários mais, resistindo às críticas do lugar-comum para garantir o contraditório, a voz dos acusados, sua versão dos fatos. Ouvia o mais frágil, recusava participar de linchamentos, duvidava do messianismo, das ovações fáceis a líderes de pano, das palavras de ordem e dos desgastados estandartes de uma moral vacilante e hipócrita. Ignorava a veemência daqueles que se julgavam no direito de fazer pouco da lei, levados por ondas atrativas de correntes punitivas.

Em editoriais, Márcio era coerente. Atacava agentes judiciais que usavam do arbítrio, mas defendia os tribunais enquanto órgãos públicos. Quando avalanches caíam sobre o Judiciário, compreendia o risco de desgastar a instituição, o perigo para a democracia decorrente de uma Justiça frágil e isolada. Não deixava de apontar erros, mas resistia ao discurso da derrocada, conhecia história e ironizava líderes que se opunham ao sistema, sabendo dos problemas de um salvacionismo inconsequente.

Era polêmico e obstinado. Defendia ideias e pessoas até o fim, sendo leal em momentos fáceis e difíceis, jamais deixando de lado uma convicção por agrados de ocasião. Faixa-preta de judô, atacava com a mesma persistência, se convencido da impertinência de algo ou alguém. Juízes, promotores, advogados e até mesmo a imprensa eram alvos frequentes de Márcio. Não se importava com convenções ou etiquetas ao expressar o que pensava ou sentia. Sabia que ser do contra causava danos, afastava mesuras, mas seguia em frente do seu jeito, sendo sempre Márcio. A lealdade valia mais que certas caras amarradas.

Mas, mais que tudo, era amigo. Mesmo adversários reconheciam sua generosidade. Casa aberta, Márcio recebia a todos, de todas as classes e categorias. Não raro suas festas juntavam motoristas e ministros na mesma mesa, simples, caseira e animada. Ria, ironizava e confraternizava, com suas peculiaridades sensacionais. Um exemplo: não gostava de futebol. Fazia questão de ligar para tratar de temas sérios em meio a jogos da Copa do Mundo, marcando sua desavença com o frenesi coletivo de rojões e bandeiras.

caricatura Pierpaolo Bottini [Spacca]Spacca
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Outro: era meticuloso com o português

Muitas vezes chamava para apontar detalhes, grafias e vírgulas, incomodava-se demais com erros, não para demonstrar cultura, mas para preservar autor e texto, e garantir uma leitura fluida e fácil. Ralhava com argumentos burlescos, frases jurídicas de rocambole, latins e rococós que enfeitavam artigos. Certa vez, passou meia hora – durante uma partida do Brasil – criticando passagem de meu livro, na qual eu descrevia uma audiência “realizada” em determinado local. Explicava indevido o uso do verbo “realizar”: a palavra expressava algo grandioso, relevante, uma obra de vulto, incompatível com um simples ato de ouvir uma testemunha. A audiência “acontecia”, não era “realizada”. Perdi um pedaço do jogo de futebol, ganhei uma lição.

Generoso, Márcio não podia ver uma loja sem comprar presentes. Em uma viagem, avisei estar a caminho de um centro comercial para buscar aspirinas na farmácia. Saí com um pequeno comprimido, ele, com quatro sacolas de lembranças para filhos, sócios, funcionários etc. Generosidade que não se limitava ao material. Abraçava causas e pessoas, não as largava em momento algum, usava sua força e caneta para defender aquilo e aqueles em quem acreditava, recebia ligações aflitas, durante o dia ou pelas madrugadas, e ouvia com paciência políticos, juízes, réus, e amigos, não raro largando o sono para entabular longos conselhos e sugestões.   

Márcio fará falta. Pelo jornalismo, pela militância em prol da liberdade, pela força de resistência, mas, sobretudo, pela amizade, pelas risadas, abraços e danças, que marcaram as várias gerações que andavam ao seu lado.

Vá em paz, querido Márcio.

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