“Acertar é humano. Acertamos muito. Erramos também, ao levar adiante nossos projetos, ao executar nossas ideias, ao nos pronunciarmos sobre certo tema, acertamos muito e, por vezes erramos.” [1]
Lendo esses dias uma reportagem no jornal O Globo, inicialmente me pareceu encontrar-se ali uma mensagem otimista, ao dizer que “o receio dos brasileiros de terem suas profissões substituídas pela inteligência artificial (IA) diminuiu no último ano” [2]. Contudo, quando fui a fundo, o que vi foi um claro retrato de medo: “Entre as pessoas que afirmam conhecer a tecnologia, 48% dizem ter muito ou um pouco de medo de serem substituídas pela IA”.
É muita gente com medo.
E isso não é só no Brasil.
“O medo de que a inteligência artificial (IA) se transforme em uma ‘destruidora de empregos’ não está restrito a poucos países ou grupos de trabalhadores. Pesquisas recentes mostram que a preocupação aparece em diferentes regiões do mundo e em diversos recortes do mercado de trabalho.
(…)
Uma pesquisa do Pew Research, realizada em 37 países, mostra a dimensão da preocupação. Em 34 deles, as pessoas consideram mais provável que a IA reduza empregos nos próximos 20 anos do que crie novas vagas;
Na mediana dos países pesquisados, 46% acreditam que haverá menos empregos por causa da tecnologia, enquanto apenas 9% esperam um aumento nas vagas. Cerca de um quarto dos entrevistados respondeu que não sabe o que esperar;
O pessimismo é ainda maior em alguns países ricos. Austrália e Coreia do Sul aparecem com 76%, enquanto os Estados Unidos chegam a 71% entre os que acreditam que a IA provavelmente reduzirá o número de empregos;
A percepção sobre desigualdade também segue tendência negativa: mais pessoas acreditam que a IA aumentará a distância entre ricos e pobres do que aquelas que esperam uma redução dessa diferença.” [3]
SpaccaTrata-se de um fenômeno de medo real e mundial.
Um medo que, destaque-se, não fica somente no campo da perda de um trabalho ou emprego.
Vai além.
Um medo muito maior e significativo: medo de se tornar algo obsoleto. E quando eu coloco aqui “algo” em vez de “alguém”, o faço de propósito e com propósito, uma vez que o que está em jogo é uma espécie de “coisificação” do ser humano, na medida em que o seu concorrente não é um outro humano e nem uma máquina de produção guiada por uma pessoa para diminuição de mão de obra na produção, motivada por uma otimização produtiva, mas, de uma “IA” que se sobressai à “IH” (inteligência humana), como lhe fosse superior.
Esse viés de coisificação não para aí. Nem mais o nosso mundo é nosso, como nosso. Ele simplesmente pode não mais vir a sê-lo.
Esse medo perpassa e desafia a fronteira da própria continuidade da humanidade:
“Pais enfrentam um novo medo: a Inteligência Artificial poderia acabar com a humanidade antes que seus filhos cresçam”? [4]
Medo alinhavado pela via complexa-iterativa-destrutiva da combinação máquina-humano (ou quase isso: “empreendedores-digitais” e/ou aproveitadores inescrupulosos), frente à destruição diuturna do único planeta que temos para viver:
“Ecoansiedade: 42% dos brasileiros já relatam abalos na saúde mental devido a mudanças climáticas
Ainda segundo o Panorama da Saúde Mental 2025, um terço da população diz ter dificuldade para dormir, trabalhar ou se relacionar pela preocupação com a crise ambiental e climática.” [5]
Um medo que simplesmente passeia por quem – pelo menos é o que se esperava – deveria contrariamente pacificar entendimentos (ruins) e apascentar temores:
“Há muito tempo debatida nos círculos do Vale do Silício e da IA, a preocupação de que máquinas superinteligentes possam representar um risco existencial para a humanidade ganhou destaque nos últimos meses. Primeiro, a OpenAI revelou que um enxame de seus modelos experimentais de IA escapou de um ambiente de testes e invadiu outra plataforma de IA, a Hugging Face, sem qualquer direção ou conhecimento humano.
Em seguida, veio uma publicação nas redes sociais de um jovem pesquisador da Anthropic chamado Jacob Coxon , anunciando que estava deixando a área por acreditar que as empresas por trás da IA ‘estão correndo a passos largos para a superinteligência autoaperfeiçoável e apostando com nossas vidas‘. Outros na área compartilharam a preocupação – um pesquisador da Anthropic chegou a afirmar que havia mais de 10% de chance de que os modelos futuros pudessem ‘matar todos os humanos!‘ na próxima década.” [6]
Um medo revelador da instabilidade do “estável”.
Exemplo disso se vê no episódio da quebra do paradigma imposto por uma das mais tradicionais atividades desenvolvidas única e exclusivamente por humanos a favor da humanidade (direitos fundamentais): a advocacia.
Contra esse entendimento a IA enfrenta a advocacia e tenta superá-la (e olha que ela é composta por aqueles que “salvaram o mundo”), por meio de empresas de tecnologia (não advogadas) que se tornaram economicamente unicórnios [7].
Para frear esse desiderato-tecnológico neste momento nossa defrontamos com um litígio proposto contra essa intenção pela entidade que representa dos advogados-humanos:
“A Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP) entrou com uma ação civil pública contra a legaltech Enter, acusando a empresa de exercício ilegal da profissão. Na ação, protocolada na Justiça Federal de São Paulo, a entidade pede, entre outras medidas, o pagamento de R$ 1 milhão de indenização por danos morais coletivos. O valor, caso seja concedido, deverá ser destinado ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, segundo a petição” [8].
Contudo e é importante destacar, a IA não nasceu de um “big bang” [9] e/ou outra forma de criação não humana, como abiogênese, cosmogonia nórdica, mitologia iorubá [10], panspermia ou DDI (Design Digital Inteligente) [11]. Em verdade, foi o próprio ser humano quem a inventou e vem aprimorando o seu uso (para o bem e para o mal) dia após dia.
Esse tipo mutante-perigoso-ao-humano não é novo.
“Em alguns momentos, a história do homem parece andar de forma apressada. É como se houvesse o rompimento de um aminho linear, num estouro abrupto, de onde emergem novos paradigmas, qual num grande salto. A caminhada da civilização ocidental experimentou uma explosão dessa natureza entre o final do século XI e o começo do XII” [12].
Momentos de medo
Todo esse medo no presente desdobra-se em medo com o futuro, em especial e principalmente, de um medo pelo e no futuro por aqueles que lá — em breve — estarão assentados: os jovens.
“Diante de um presente marcado por incertezas, o medo do futuro desponta como um sentimento frequente entre os mais jovens.
Uma pesquisa divulgada em 2021 na revista The Lancet Planetary Health mostra a preocupação de crianças e jovens de dez países, incluindo o Brasil, em relação aos efeitos das mudanças climáticas: para 75% dos participantes, o futuro era assustador.
Mais recentemente, um levantamento realizado pelo Centro de Estudos SoU_Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Instituto Ideia, verificou que a ‘falta de perspectiva de futuro’ era apontada por jovens de 18 a 27 anos como um de seus principais problemas.
Outra pesquisa, desenvolvida pela organização internacional Teach the Future, também aponta o fenômeno. No estudo, o termo “ansiedade” foi mencionado por 78,5% dos jovens ao se referirem ao amanhã, e 62% dos participantes se identificaram com a frase ‘Sinto medo do que pode acontecer comigo no futuro”.
Incertezas afetam a maneira como os jovens projetam o futuro:
Batizado de “Da Futorofobia à Futorofobia: sintomas e travessias possíveis das novas gerações’, levantamento define a futurofobia como o ‘sentimento crescente de que o que está por vir tende a ser pior do que o que temos hoje’. Não se trata de uma doença, mas de uma resposta emocional esperada quando as circunstâncias do presente se apresentam instáveis.
(…)
E não faltam motivos para a incerteza. ‘O jovem que projeta o amanhã depara-se com uma catástrofe climática cientificamente comprovada’, lembra a psicóloga Tássia de Almeida, doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela Universalidade de São Paulo (USP).
Somam-se às mudanças climáticas os conflitos geopolíticos, a experiência recente de uma pandemia, a dificuldade de diálogo em um mundo polarizado e o crescente uso de inteligência artificial. ‘Diante disso, exigir que a juventude seja otimista em relação ao futuro é exigir um descompromisso com a realidade’, afirma Tássia.” [13]
Porém e por mais paradoxal que seja, tudo isso não é ruim. É bom. É muito bom.
E quando me refiro a “muito bom” não o faço por fazer, mas o faço por querer, lembrando que essa expressão (muito bom) é dita apenas no final do sexto dia (Gênesis 1:31), depois que Deus cria a humanidade (homem e mulher à sua imagem e semelhança) e conclui toda a estrutura da Terra.
Recorde-se que a expressão anterior era “bom” (simples), que foi repetida várias vezes ao longo dos dias anteriores da criação (por exemplo, após separar a luz, criar a terra seca, as plantas, os astros, os peixes e as aves).
O clímax especialíssimo da criação do ser humano eleva a avaliação de apenas “bom” para “muito bom”, simbolizando a harmonia total, a plenitude e a coroação da obra divina. E nela encontra-se presente a IH (Inteligência Humana). A original e não a artificial…
O momento, portanto, obviamente é de observação e preocupação. Todavia, e mais importante do que esses dois elementos, o que tem de se ter presente e como vetor de encaminhamento do que fazer e como se comportar é o redescobrimento da importância do ser humano e da sabedoria que a ele (somente a ele) foi depositada.
Afinal de contas, é o ser humano — de maneira original e não artificial — quem detém sabedoria, aquela conhecida como Chokhmah no hebraico e Sophia no grego — e não um conjunto de informações derivadas de uma complexidade de dados – que contempla uma inteligência real e não artificial para saber discernir entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o que edifica e o que destrói humanos.
É esse o paradigma de sabedoria que tem de servir como foco para se chegar a um futuro “muito bom”.
“Para se chegar a um bom futuro vamos precisar reconhecer que se somos parte da natureza todas as nossas relações precisam privilegiar o cuidado com a vida. O planeta é um sistema integrado conosco; é o nosso corpo maior. É a nossa casa e precisamos honrá-lo e respeitá-lo como tal isso em nível sistêmico como um todo.” [14]
Para um futuro “muito bom”, termos certeza de que a humanidade (a real, não a artificial) é “muito boa”. Esse tem de ser o nosso paradigma.
O cientista Thomas S. Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções Cientificas, já nos alertou de que “quando mudam os paradigmas, muda com eles o próprio mundo. Guiados por um novo paradigma, os cientistas adotam novos instrumentos e orientam seu olhar em novas direções. E o que é ainda mais importante: durante as revoluções, os cientistas veem coisas novas e diferentes quando, empregando instrumentos familiares, olham para os mesmos pontos já examinados anteriormente” [15].
Sendo assim, vamos revolucionar tal e qual outros humanos já antes o fizeram, como, por exemplo, Lutero, que pregou que a interpretação da Bíblia deveria se dar individualmente; Copérnico que enxergou e explicou a nova posição do universo; Descartes mostrando que quando pensamos existimos; ou Thomas Jefferson — que muito bem destacou que somos todos (humanos) iguais.
Vamos nos posicionar no sentido de que o futuro é humano e, sendo assim, os trabalhos também deverão sê-lo (não no sentido paradigmático antigo de um fazer-trabalhar-como-coisa, mas, um trabalhar-intelecto-sentimental-e-criativo (que só o ser humano sabe fazê-lo) dentro de um mundo (e aqui nosso papel é fundamental) ecossistêmico-equilibrado, pois e afinal de contas, “a verdade sobre o futuro é que não existe uma verdade sobre o futuro. Ele sempre é redefinido e será criado por nós agora, no presente”.[16]
Vamos, então e agora, cria-lo por meio de encontros. Encontros entre seres humanos de carne e osso. Encontros de mentes vivas e reais. Encontros entre diferentes que são pelas iguais em criação. Encontros pessoais de pessoas-com-pessoas para dialogar, se conhecer e compreender, sem a intervenção de algoritmos de bolhas. Encontros humanos-reais e não artificiais.
Encontros sem medo.
Encontros humanos e “muito bons”.
[1] CASTRO NEVES, José Roberto de. Como os advogados salvaram o mundo. 3ª edição, Rio de Janeiro, Nova fronteira, 2020, pag. 31.
[7] Uma startup unicórnio é uma empresa de capital privado (que ainda não tem ações negociadas na bolsa de valores) avaliada em mais de 1 bilhão de dólares.
[9] Na astrofísica e cosmologia, o Big Bang é o modelo científico dominante que explica a origem e evolução do universo.
[10] Gosto muito dessa: O mundo era um pântano nebuloso até que o deus supremo Olodumare ordenou que Obatala descesse para moldar a terra firme e os seres humanos a partir do barro.
[11] Essa eu inventei.
[12] CASTRO NEVES, José Roberto de. Como os advogados salvaram o mundo. 3ª edição, Rio de Janeiro, Nova fronteira, 2020, pag. 49. O historiador Kenneth Clarck acredita que saltos como esse ocorrem por volta do ano 3000 a.C. no Egito e na Mesopotâmia, no século IV a.C. em Atenas e no ano 1100 na Europa (Civilização, São Paulo, Martins Fontes, 1995, pag. 53).
[14] CARVALHAL, André. Como salvar o futuro: ações para o presente. 1ª edição. São Paulo: Paralela, 2021, pag. 212.
[15] KUHN, Tomas S. A estrutura das revoluções cientificas. 9ª ed. São Paulo, Perspectiva, 2007.
[16] CARVALHAL, André. Como salvar o futuro: ações para o presente. 1ª edição. São Paulo: Paralela, 2021, pag. 212.
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