Em uma das primeiras conversas que tive com Márcio Chaer, ele vaticinou: “Pode anotar: a ‘lava jato’ vai ser anulada. A Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário ficam encantados com a possibilidade de prender e condenar e, nisso, acabam atropelando a lei. Depois reclamam que o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça anulam os casos. Então tome cuidado ao noticiar a investigação”.
ReproduçãoIsso foi em novembro de 2014, pouco depois de eu começar a trabalhar na ConJur. A “lava jato” estava ganhando tração, com os primeiros acordos de colaboração premiada. A investigação havia sido frequentemente explorada por opositores da presidente Dilma Roussef (PT) na eleição de outubro e quase custou sua reeleição, conquistada contra Aécio Neves (PSDB) no pleito mais acirrado após a redemocratização (que só seria superado pela disputa de 2022).
Márcio sempre desconfiou das grandes “operações” — termo que ele odiava — e de como a imprensa se deixava levar sem questionar os seus métodos. Na “lava jato”, conduziu a ConJur quase solitariamente no questionamento às suas práticas abusivas. A maré finalmente começou a virar com a revelação das conversas da “vaza jato”, mas para quem acompanhava o site de Márcio, não era uma grande novidade.
A defesa do direito de defesa é o seu maior legado. É um tema espinhoso, de difícil convencimento. O punitivismo é sedutor e atrai direita e esquerda — ainda mais em um país com alta criminalidade, tanto violenta quanto relacionada aos cofres públicos.
As garantias de acusados de crimes são um marco civilizatório e é preciso sustentá-las independentemente dos envolvidos. Márcio me lembrou disso quando fiquei indignado com a anulação, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, da condenação de 73 policiais militares pela morte de 111 detentos do Carandiru por falta de individualização das condutas.
O impacto de acusações penais nas vidas das pessoas era um dos pontos que o fundador da ConJur mais destacava em nome do direito de defesa. É claro que quem pratica delitos deve responder por eles, ressaltava o jornalista. Mas com direito de contestar as acusações e não ser tratado como culpado desde o início das investigações, seja pelo sistema de Justiça, seja pela imprensa. A imputação de crimes destrói carreiras, termina relacionamentos, afasta familiares e amigos. E as pessoas lembram-se das acusações, nunca das absolvições, anulações ou trancamentos de investigações. Basta ver que grande parte dos brasileiros desconsidera a invalidação de sentenças da “lava jato” e segue professando a culpa dos envolvidos.
Ao comentar o arquivamento das investigações de adolescentes sobre a morte do cachorro Orelha, Márcio sintetizou sua visão de um jornalismo garantista:
“A pegada ConJur é mostrar como a mentira é bem acolhida pela população quando ela é mais colorida que a verdade. Quanto maior a mentira, mais sucesso faz. Por isso essa decisão atrasada (arquivamento) vale menos pelo ato de ofício do que pela demora para se admitir o que estava na cara de todo mundo (nossa, inclusive). Não é um registro burocrático, é a constatação do sucesso da carnavalização e de que, um dia, a palhaçada se desfaz. Mesmo que demore anos.”
Sensibilidade oculta
Um dos aspectos fascinantes de Márcio Chaer é que ele era complexo e imprevisível. Não dava para adivinhar o que pensava sobre um determinado assunto nem lhe atribuir rótulos — exceto o de garantista. Também dependia do momento — às vezes o jornalista falava algo que ia de encontro ao que geralmente professava, autoquestionando-se. “Eu me contradigo?/Pois muito bem, eu me contradigo/Sou amplo, contenho multidões”, escreveu Walt Whitman.
Para entender sua mente, volta e meia eu lhe perguntava o que achava de algum tema, por vezes não diretamente relacionado a alguma apuração. Nem sempre ele gostava. Por outro lado, em certas ocasiões Márcio subitamente indagava sobre algum tópico que parecia não fazer tanto sentido. Conforme a conversa se desenrolava, percebia-se que ele tinha apurado a informação com dez fontes importantes e estava verificando se você tinha entendido o cerne da pauta. Ou seja, tinha um ponto não óbvio, estava olhando para o sentido oposto ao da maioria.
O fundador da ConJur era avesso a sentimentalismos, mas tinha uma sensibilidade bonita, que por vezes atravessava sua fortaleza por meio de rachaduras. Em uma festa em sua casa, em São Paulo, ficou emocionado ao me mostrar um DVD de “Os Três Tenores”, pedindo que ficássemos em silêncio para apreciar o som. No lançamento da nova sede do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, estava maravilhado com o renovado edifício de 1926 e os ares de capital que ainda permanecem na cidade. Na abertura da mostra “Afro-brasilidade, homenagem a dois Valentins e a um Emanoel”, da FGV Arte, abandonou a roda de conversa dizendo que queria ver a apresentação do sambista Mosquito e ficou na frente do palco, sozinho, filmando trechos, com um sorriso no rosto.
Dono de um humor peculiar, Márcio gostava de espezinhar, mas achava graça quando era rebatido — e respeitava quem o fazia. Seus olhos brilharam quando eu comentei que havia praticado caratê na adolescência — faixa preta e professor, poderia ficar horas discorrendo sobre a arte marcial e seus campeonatos. Imediatamente propôs que eu desse um golpe nele, e vice-versa. Desferi um soco sem força — era o dono do site, afinal — e fui surpreendido por uma porrada na barriga. Rindo, reclamei da injustiça. “Caratê não é brincadeira, Serjão”, respondeu ele, com o semblante sério sendo desfeito por uma gargalhada marota.
Aparentemente durão, Márcio era extremamente generoso e beneficiou inúmeras pessoas. Após uma reportagem contrária a seus interesses, o maior patrocinador do site à época pediu a minha demissão. Márcio bateu o pé e disse que isso estava fora de cogitação. Quando solicitei ajuda a um familiar, ele imediatamente auxiliou. Ofereceu-me afastamento remunerado para tocar um projeto pessoal e jamais questionou minha ausência no antes e depois da morte de meu pai.
Diversas vezes Márcio foi prestativo comigo em assuntos extraprofissionais. Ao ingressar na ConJur, eu era um advogado que havia migrado para o jornalismo e estudava comunicação social. Sempre de boa vontade, Márcio topou ser entrevistado para reportagens de texto e vídeo para a faculdade e participar da banca do meu trabalho de conclusão de curso.
Professor de jornalismo
As aulas mais importantes que tive, contudo, vieram da prática do jornalismo, e Márcio foi um professor marcante. O fundador da ConJur era um mestre em cultivar fontes e tratava da mesma forma ministros do Supremo e advogados distantes dos altos círculos do poder. Devido a essa atividade — mas não só —, antevia movimentos da política e do meio jurídico. Rigoroso, lembrava sempre que nosso papel era o de mastigar o assunto para o leitor e facilitar o trabalho de advogados, magistrados, integrantes do Ministério Público. Odiava o que chamava de “poesia”, afirmações abstratas que não levam a lugar nenhum. E textos que não captam a relevância do acontecimento.
“Caro, o dever do redator é narrar o fato com sua carga de importância. Você pode descrever uma compra no supermercado como uma epopeia (com cores mais fortes), pode descrever como um minuto de silêncio (da forma mais chata do mundo) ou como uma compra no supermercado mesmo. Você pegou uma coisa interessante e descreveu como uma bula de remédio”, reclamou ele certa vez de uma reportagem minha.
Em entrevistas, o foco deveria estar no entrevistado, e não no repórter — repudiava jornalistas-celebridades. Dessa forma, a introdução deveria ser concisa, e as perguntas, diretas, e não digressões pavonescas. No auge da crise política que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, entrevistamos o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, em uma série com grandes figuras na Nova República. Ele era acusado pela “lava jato” de irregularidades, e inclui na pauta uma pergunta a respeito disso, descrevendo as imputações. “Você não precisa contar que a mulher dele o traiu com o Ricardão, na cama dele, que estava vestindo lingerie vermelha. Ele sabe disso. Seja direto e pergunte o que ele tem a dizer a respeito das acusações. E só”, ensinou Márcio. Quando acertávamos, ele elogiava indiretamente, transmitindo comentários positivos que outros lhe haviam enviado.
A lição mais importante que ele me deu não diz respeito à técnica, mas ao espírito que o jornalista deve ter. “A ConJur parece uma repartição pública”, reclamava Márcio quando não conferíamos a um fato a urgência necessária. Para ele, não podíamos ser “burocratas”. “O jornalismo é uma área difícil, o mercado vem piorando há décadas. Se não for para ter tesão no ofício, melhor migrar para outro campo e viver uma vida mais confortável”, apontava.
Ele levava suas palavras a ferro e fogo. Lia jornais com olhar atento para novas pautas, circulava incessantemente em eventos, falava o dia inteiro com fontes no celular. Respeitava o tempo pessoal, mas ficava desapontado quando alguém tinha condições e se negava a fazer uma reportagem quente: “A notícia não tem hora”. Dizia que tínhamos que pensar como empreendedores, em talvez ter um veículo um dia. Se seguíssemos essas práticas e nos dedicássemos de verdade, seríamos grandes jornalistas. “A sorte favorece os audazes”, afirmou Virgílio.
Nossa relação nem sempre foi tranquila. Houve tensão, momentos em que eu me revoltei e ele se decepcionou comigo. Com o passar do tempo, no entanto, os ânimos se apaziguaram. Eu tinha enorme admiração e carinho por ele.
Na semana e meia que se passou após a sua morte, percebi como Márcio era intensamente presente no meu cotidiano, mesmo ele em São Paulo e eu no Rio. Senti falta de sua orientação sobre a cobertura das eleições, de como me portar em um evento com seus parceiros e até de acordar e já ter diversas mensagens dele no WhatsApp.
Paralisado pela dor, demorei a conseguir escrever este texto. E, conforme ia chegando ao fim, não queria o concluir, pois isso significaria me despedir de vez. Não há o que fazer senão levar o seu legado adiante. Vá em paz, Márcio.
O post Márcio Chaer, o jornalista que continha multidões apareceu primeiro em Consultor Jurídico.