O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou, nesta terça-feira (27/10), a instauração de um inquérito policial sobre uma possível interferência dos EUA nas eleições. A Polícia Federal ficará responsável por investigar suspeitas de movimentação de recursos estrangeiros que podem ter financiado, de forma oculta, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado no segundo turno da eleição presidencial neste domingo (25/10).
Reprodução/X/Eduardo BolsonaroA apuração deverá esclarecer o teor e o objetivo dos contatos e das negociações entre dois empresários brasileiros e representantes da Rockbridge, organização política privada dos EUA que faz captação de recursos para financiar campanhas e movimentos alinhados à agenda republicana e conservadora. A ideia é verificar se houve fornecimento de recursos, serviços ou outras vantagens para emprego na campanha de Flávio, devido às suspeitas de atuação desses empresários na intermediação de apoio financeiro à sua candidatura.
Outra meta é identificar os responsáveis pelo pagamento e pela contratação de perfis estrangeiros que fizeram publicidade eleitoral favorável à candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, bem como a procedência dos recursos. É necessário descobrir se a campanha eleitoral sabia ou participou dessa divulgação remunerada.
Dino também quer saber se há relação entre as tratativas de financiamento político e os interesses econômicos dos EUA em terras raras e minerais críticos brasileiros, pertencentes à União. A investigação vai tentar entender se houve alguma proposta, por quem ela teria sido formulada, a quem ela teria sido dirigida, por qual meio e qual seria a suposta contrapartida.
A PF ainda se debruçará sobre possíveis assimetrias e manipulações de algoritmos de big techs com objetivo de prejudicar candidaturas no processo eleitoral do Brasil. A principal denúncia é a de que restrições técnicas da Meta, dona do Instagram, prejudicaram a campanha do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Contexto
O pedido de investigação foi apresentado no último mês pelo PT em uma ação que, originalmente, trata do pagamento de honorários de êxito no processo da Justiça inglesa sobre o desastre de Mariana (MG). Em 2025, Dino decidiu, no âmbito dessa mesma ação, que leis estrangeiras só têm validade no Brasil quando há homologação pelo Judiciário nacional ou quando são seguidos os mecanismos de cooperação judiciária internacional.
Na petição, o PT alegou que há indícios de execução interna de atos estrangeiros, o que ofenderia a decisão anterior. Entre esses atos estão os de impacto no processo eleitoral, com a promessa das terras raras (17 elementos químicos fundamentais para a produção de componentes eletrônicos). Os EUA têm investido na produção desses elementos em outros países, de forma a reduzir sua dependência da indústria chinesa e em busca de autonomia industrial.
Segundo o partido, o uso das terras raras como moeda de troca surge a partir de um memorando estratégico produzido pelo humorista e candidato derrotado ao governo do Rio de Janeiro, André Marinho (Novo). Ele é filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado. O documento foi produzido em março com diretrizes de parceria entre Brasil e EUA para a exploração desses minerais críticos “em eventual governo de Flávio Bolsonaro”.
Poucos dias depois, o senador discursou em uma conferência de políticos conservadores nos EUA e declarou que “o Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”.
Em abril, Marinho foi recebido por J.D. Vance, vice-presidente dos EUA e cofundador da Rockbridge. Já em maio, foi registrada no estado do Wyoming (EUA) a Rockbridge Brazil LLC, tendo Chris Applegate, assessor de J.D. Vance, como organizer.
No mesmo mês, foi registrada a Sng Consult Empresarial, do empresário brasileiro Pedro Sang. De acordo com o PT, Sang é o operador da Rockbridge no Brasil. A suspeita apontada é que a Rockbridge tenha financiado indiretamente a campanha de Flávio nas eleições brasileiras, por meio da empresa de Sang.
O empresário estabeleceu relação com a organização americana por intermédio de Marinho, em visita aos EUA para evento em outubro de 2025. Além disso, trabalhou presencialmente no comitê central de campanha de Flávio em São Paulo. À imprensa, Sang negou que exista financiamento direto da Rockbridge, mas não detalhou quem remunera sua atuação profissional.
Outro ponto trazido na petição é que perfis sediados no exterior veicularam conteúdos favoráveis à candidatura de Flávio a partir de previsões da plataforma de mercado Polymarket, proibida no Brasil. O PT aponta que houve possível remuneração desses perfis, sem identificação do pagador, nem dos valores.
Esses mesmos argumentos foram levados pelo PT e pela coligação de Lula ao TSE. Na corte eleitoral, também há uma representação de Renan Santos (Missão), candidato à Presidência da República derrotado no primeiro turno, que narra os mesmos fatos.
Ao TSE, Renan indicou que o financiamento estrangeiro da campanha de Flávio foi intermedida pela Rockbridge, por Sang e por Tallis Gomes — outro empresário ligado à entidade americana e que, publicamente, negou arrecadação financeira formal para a campanha.
Fundamentos
Ao requisitar a investigação, Dino constatou “possível instrumentalização da atividade político-partidária em favor de interesses estrangeiros”.
O relator da ação ressaltou que os fatos apresentados convergem com documentos oficiais de diversas fontes e com a ampla cobertura da imprensa. O ministro lembrou que, conforme o Código de Processo Civil, fatos notórios e incontroversos não dependem de prova.
Ele citou, por exemplo, uma declaração do Conselho de Supervisão de Meta publicada na última terça (20/10). A entidade se disse preocupada com falhas recorrentes na aplicação das normas eleitorais da Meta e com a aplicação excessiva das políticas antifraude da empresa contra contas de anúncios de Lula. Segundo o comunicado, isso deveria ter sido encaminhado a uma equipe interna de especialistas.
Peritos da Organização das Nações Unidas (ONU) também alertaram para riscos de desequilíbrio digital nas eleições brasileiras e apontaram interrupções temporárias de contas de campanha, além de disparidades no engajamento do público e no alcance das publicações.
Em um relatório, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também citou risco de interferência externa voltada a desestabilizar o processo eleitoral e favorecer interesses geopolíticos estrangeiros.
Para o magistrado, os acontecimentos descritos “apontam para a intensificação dos indícios de ingerência estrangeira no processo eleitoral, circunstância que exige atenção institucional”.
Dino destacou que tanto o Brasil quanto os EUA proíbem o financiamento estrangeiro. A legislação estadunidense prevê que pessoas e entidades estrangeiras não podem fazer, direta ou indiretamente, contribuições ou doações vinculadas a eleições. Nos dois países, a vedação vale para qualquer “vantagem economicamente aferível” recebida por partidos ou candidatos, mesmo que não haja transferência de dinheiro.
“Além disso, o que define a fonte vedada é a procedência dos recursos, e não a nacionalidade de quem efetua a doação”, acrescentou.
Na visão do ministro, “não se pode, portanto, admitir que a intermediação de pessoas ou o custeio indireto de atividades de campanha convertam recursos estrangeiros em vantagem eleitoral, com prejuízo à igualdade da disputa e à livre formação da vontade popular”.
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ADPF 1.178
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