Ir até Havana, de Leonardo Padura

Na semana passada comentei O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura. Uma amiga me escreveu perguntando sobre minha viagem a Cuba que havia mencionado no meu texto. Quando estive lá, e já faz tempo, todos líamos A Ilha, do Fernando Morais, um relato idílico de uma utopia em forma de ilha.

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No entanto, a ilha que não conheci (em 1991) não era, obviamente, a ilha descrita pelo escritor brasileiro. Por falta de competência eu não consegui, naquele tempo, registrar minhas impressões. Se conseguisse, seria um livro que descreveria outra ilha, nada utópica, ainda que não necessariamente distópica. Essa tensão toda é resolvida com a leitura de Ir até Havana, de Leonardo Padura.

É também o livro sobre uma cidade. Há uma concepção arquitetônica que entende a cidade como um organismo. As cidades nascem, crescem, adoecem, desaparecem, renascem. Calculemos a obsessão de Freud em relação a Roma. A Cidade Eterna talvez seja como nosso subconsciente, formado por camadas que se sobrepõem, no tempo e na experiência e na memória.

Como na metáfora de Heráclito (ninguém nada duas vezes no mesmo rio) parece-me que não andamos duas vezes na mesma cidade. Basta andarmos pelo centro histórico de São Paulo, ou pela Cinelândia, no Rio ou pela Avenida Afonso Pena em Belo Horizonte, ou pela W3 Sul, aqui em Brasília. Uma vez outro amigo me disse que Brasília era muito artificial. Perguntei bruscamente se seria possível imaginar que Roma já nasceu em ruínas. Isto é, toda cidade é artificial. Entendamos, no entanto, que artificial nos remete a alguma forma de arte, ou de artefato, que sempre qualificam a presença humana. Do contrário, não é cidade. É o bucolismo dos árcades.

As transformações de uma cidade (no caso, Havana) dão o tom de Ir até Havana, do escritor que merece um Nobel. Merece mesmo. Padura é coerente. Perguntam-lhe o tempo todo por que não deixa Cuba, à vista de tantos problemas e de tantas dificuldades. Afinal, debandaram muitos escritores cubanos insatisfeitos com o regime; a maioria dos dissidentes foi para os Estados Unidos e para a Espanha.

Padura sustenta que os temas que movem sua literatura são temas cubanos. É um crítico, mas não é necessariamente um dissidente. Afirma que não conseguiria substância narrativa se deixasse Cuba, que obstinadamente ama. É um exemplo singular na história da literatura. Por isso, o crédito que acompanha suas opiniões.

Ir até Havana é uma crônica (ou um ensaio) sobre o desfazimento de Havana, desde 1959, quando a patota do Fidel e do Ernesto tomou o poder. Padura narra o desfazimento de uma cidade que foi glamorosa, a Nice da América, que imitava Miami. Padura quebra o estereótipo da Cuba dos mafiosos, que vemos no Poderoso Chefão (acho que III) quando Michael Corleone (Al Pacino) está negociando na ilha, exatamente no dia da chegada dos guerrilheiros na cidade.

O verdadeiro milagre cubano

Padura relata a degradação da cidade, na verdade, a degradação de uma cultura exuberante, destruída na tentativa utópica de se construir um homem novo, livre dos valores burgueses. Os negacionistas do fracasso cubano certamente culpam o embargo norte-americano. A utopia da foice e do martelo sempre buscou culpados.

Padura revela os paradoxos da cidade socialista, na qual, depois de um certo tempo (isto é, depois da queda da União Soviética) faltava tudo: tinta, tijolos, madeira. Ao mesmo tempo em que ocorre a degradação do espaço urbano, ocorre também a perda de um sentido de urbanidade. Como naquele filme de Buñuel todos parecem regredir para estágios comportamentais quase pré-civilizatórios. Em Cuba, um parafuso tem um valor incomensurável. Tudo é objeto de disputa. Perde-se o senso de comunidade, o que corre exatamente na linha oposta da utopia salvacionista.

O autor nasceu em 1955. Talvez não tenha memória e registros da Cuba pré-Fidel. Porém, acompanhou o desmonte de uma cidade que tem como sua. É parte dela. Tanto que ficou. Recebeu passaporte espanhol (certamente como reconhecimento pela qualidade de sua obra), viaja, porém, mesmo assim, sempre retorna para a Havana da qual faz parte.

Padura, no fecho desse livro imperdível, registra que “como qualquer organismo vivo, as cidades reclamam afetos, e há décadas Havana tem recebido poucos com a profusão exigida. Hoje, talvez receba menos carícias do que nunca. E meu senso de pertencimento sofre com esse processo, que inclusive me leva a perguntar se, algum dia de tão alheia e por momentos até hostil, de tão desfigurada a alma e com a alma tão sofrida, também deixarei de sentir que Havana é a minha cidade”.

Dependendo da percepção do leitor, Ir até Havana é um comentário profundo de ciência política. Ensina muito mais do que toneladas dos frankfurtianos do exílio. A pólis (de onde, política, polícia, polimento) é o nicho no qual convivemos e nos organizamos. O leitor de Padura compreende que Havana transformou-se com a brutalidade de uma utopia teimosa. O verdadeiro milagre cubano é os cubanos viverem por milagre.

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