O Direito Insolvencial brasileiro passou por profunda reformulação estrutural. Sob o Decreto-Lei nº 7.661/1945, a concordata preventiva orientava-se por visão liquidatória e punitiva, focada na proteção ostensiva do crédito em detrimento da atividade econômica, enxergando o empresário em crise sob o estigma do insucesso.
Com a Lei nº 11.101/2005, o ordenamento operou verdadeira virada copernicana. Inspirado pela função social da propriedade e do livre mercado (artigos 170 e 173 da Constituição), o legislador substituiu a concordata pela recuperação judicial e extrajudicial. O eixo axiológico deslocou-se do credor para a preservação da empresa enquanto unidade produtiva geradora de empregos, tributos e inovação social.
Essa virada assenta-se no reconhecimento de que a falência imotivada gera custos sociais e econômicos expressivamente superiores aos contratempos de sua reestruturação. A preservação da empresa, portanto, ultrapassa interesses privados; trata-se de valor jurídico de relevante interesse público.
A tensão histórica com o Direito Administrativo das licitações
SpaccaA despeito da evolução da Lei nº 11.101/2005, a interface entre recuperação judicial e licitações permaneceu marcada por controvérsias. A antiga Lei nº 8.666/1993 previa em seu artigo 31, II, a exigência de certidão negativa de falência ou concordata.
Com a substituição da concordata, a exegese literal conduziu ao banimento sumário de empresas em recuperação dos certames. A prática revelava-se paradoxal: enquanto o Estado-Juiz deferia o processamento da recuperação para salvar a empresa, o Estado-administrador impedia seu acesso ao mercado consumidor público, ceifando sua principal fonte de receita e ignorando o impacto transformador do poder de compra estatal na economia.
A construção jurisprudencial e o papel do STJ
Diante da antinomia, o Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento alinhado à preservação da empresa. O marco consolidou-se no julgamento do REsp 1.826.299/CE (relatora ministra Regina Helena Costa), assentando que a exigência de certidão negativa não pode atuar como óbice absoluto à participação em licitações, desde que demonstrada a viabilidade econômica e o plano acolhido pelo juízo competente.
A jurisprudência fixou premissas basilares:
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Aspecto analisado |
Entendimento tradicional (Lei 8.666/93) |
Posicionamento consolidado (STJ / Leis Atuais) |
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Acesso a licitações |
Desqualificação automática mediante certidão positiva. |
Permissual, mediante comprovação de aptidão e viabilidade. |
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Certidões fiscais |
Exigência absoluta sob pena de inabilitação. |
Mitigação ou diferimento conforme plano aprovado. |
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Garantia de execução |
Ridez nas exigências contratuais. |
Flexibilização razoável sem comprometer o interesse público. |
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Direcionamento |
Caráter meramente punitivo/repressivo. |
Caráter preservativo e integrador da função social. |
O Marco Legal atualizado: as Leis nº 14.112/2020 e nº 14.133/2021
O entendimento do STJ foi positivado nas reformas normativas. A Lei nº 14.112/2020 alterou a Lei de Falências, enquanto a Nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021) consolidou definitivamente o paradigma da preservação nas contratações públicas:
- Habilitação Econômico-Financeira (artigo 69): O normativo exige certidão negativa de falência (e não de recuperação). As empresas em recuperação devem demonstrar capacidade por meio de balanço e demonstrações contábeis.
- Regularidade Fiscal: Alinhada à jurisprudência, a NLLC viabiliza a aceitação de certidões positivas com efeitos de negativa ou comprovação de parcelamentos, harmonizando o soerguimento com o interesse fiscal.
Impactos estratégicos na gestão dos contratos administrativos
A inclusão dessas empresas exige dos agentes públicos atuação proativa e análise substancial — e não formalista.
- 5.1. Avaliação da Habilitação: cabe verificar se o plano foi homologado pelo juízo competente e se há viabilidade para o objeto licitado, afastando exigências desproporcionais que restrinjam a competitividade.
- 5.2. Mitigação de Riscos: a administração dispõe de ferramentas da Lei nº 14.133/2021, como a exigência de garantias robustas (seguro-garantia), previsão de pagamento direto a subcontratados/trabalhadores em mão de obra exclusiva, e monitoramento periódico do andamento da recuperação judicial.
- 5.3. Proteção ao Fôlego e Papel do Agente de Contratação: o empresário em recuperação atua como agente de políticas públicas descentralizadas, gerando empregos e tributos. O respeito à isonomia e à proposta vantajosa exige o afastamento de barreiras indevidas. Destaca-se o respeito estrito aos prazos recursais e ao efeito suspensivo (artigo 168 da Lei nº 14.133/2021), salvaguardando o contraditório antes de decisões que comprometam irreversivelmente a atividade produtiva.
Considerações finais
A evolução da concordata à recuperação judicial refletiu positivamente nas contratações públicas. O pragmatismo das Leis nº 14.112/2020 e nº 14.133/2021 e a jurisprudência do STJ encerraram antinomias. Ao Estado administrador, cabe aperfeiçoar a governança e a gestão de riscos: a preservação da empresa é, em última análise, a mais alta expressão da realização do interesse público.
Referências
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COELHO, Fábio Ulhoa. Comentários à nova lei de falências e de recuperação de empresas. São Paulo: Saraiva, 2005.
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RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Súmula nº 12. Plenário, aprovada em 01/02/2023.
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